O campo do patrimônio cultural, desde a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) em 1937, desempenha papel central na construção da memória coletiva brasileira. Em Minas Gerais, o barroco foi elevado ao status de símbolo nacional pelos modernistas, sendo apresentado como expressão de uma identidade estética própria (BAUMGARTEN & TAVARES, 2013, p.3). Tal consagração, entretanto, ocorreu em detrimento de outras matrizes culturais igualmente constitutivas da sociedade mineira, especialmente a afro-brasileira. Minas Gerais foi o Estado mais contemplado pelas ações patrimoniais do SPHAN, em suas primeiras décadas de atuação. Entre 1938 e 1967, dos 165 bens tombados, 103 eram religiosos, sobretudo católicos, e mais de noventa datavam do século XVIII (JULIÃO et al. 2025, p.167). Observa-se, assim, a consolidação de uma narrativa patrimonial fortemente vinculada à herança colonial e religiosa.
Por outro lado, a criação do Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial ampliou as possibilidades de reconhecimento do patrimônio afro-brasileiro (LIMA, 2020, p.48). No âmbito estadual, o primeiro registro realizado pelo IEPHA ocorreu em 2002. Na década de 2010 foram protegidos nove bens e, a partir de 2020, dois registros foram efetivados, dentre os quais dois vinculados às comunidades quilombolas. No plano federal, o IPHAN registrou sete bens, sendo o Ofício dos Mestres de Capoeira, a Roda de Capoeira e o Jongo no Sudeste referências associadas à cultura negra. Ressalta-se, contudo, que tais registros possuem abrangência nacional. Em contrapartida, os bens de alcance estadual permanecem majoritariamente vinculados à tradição colonial, como o Toque dos Sinos e o Ofício do Sineiro (JULIÃO et al. 2025, p.179-180).
Parte-se da hipótese de que esse desequilíbrio não decorre apenas de critérios técnicos ou estéticos, mas expressa a atuação do racismo estrutural na definição das políticas de patrimonialização. Conforme ALMEIDA (2019), o racismo estrutural manifesta-se na organização das instituições e na reprodução sistemática de hierarquias raciais, influenciando a distribuição de poder simbólico. Nesse sentido, a seleção e a legitimação de bens culturais podem refletir processos históricos de exclusão.
O objetivo da pesquisa é analisar de que maneira o racismo estrutural influencia os processos de patrimonialização no Estado, contribuindo para a centralidade discursiva e informacional do patrimônio colonial e barroco em detrimento do patrimônio cultural negro. Para tanto, adota-se abordagem qualitativa, por meio de estudo de caso centrado nos processos de tombamentos e registros realizados pelo IPHAN e pelo IEPHA no estado de Minas Gerais. Ademais, a pesquisa emprega análise documental e análise de conteúdo de leis, decretos, atas e processos administrativos, além de reportagens e pronunciamentos de gestores. São realizadas, ainda, entrevistas semiestruturadas com técnicos e dirigentes dos referidos institutos, com base nos procedimentos metodológicos descritos por DE OLIVEIRA (2008, p.5-6).
Dentre os primeiros resultados da pesquisa, ressaltam-se que os critérios de seleção patrimonial não são neutros, mas atravessados por dinâmicas históricas de poder que contribuem para a sub-representação do patrimônio cultural negro em âmbito estadual. A pesquisa busca, assim, contribuir para o debate sobre memória, poder e desigualdade racial nas políticas culturais brasileiras.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)